Falar de gastronomia é falar de
vó. Pra mim, é falar da minha vó, naturalmente. E é batata: toda vez que eu
penso num modelo de cozinha cheia de gostosuras, penso na minha vó, numa mesa
grande, cheia de farinha, e num cheiro muito bom saindo daquele forno.
Neste domingo, minha vó partiu: assim,
sem alarde. Quando acordei, na segunda-feira, espiei do corredor para ver se a
via fazendo mingau. Fechei os olhos e quase fui capaz de escutar: “Cla, é baunilha
ou chocolate?”. Ela não estava lá. Nunca mais vai estar, eu sei. A cabeça sabe,
mas o coração, sofrido, pesado, ainda engana os ouvidos, os olhos, as mãos, a
boca. É por isso que, na manhã do dia
seguinte, eu ainda insistia em escutar os seus passos mansos, e a via
sentadinha no sofá, com seus pés que nunca alcançavam o chão. E ainda hoje,
passados quatro dias, sinto o gosto do melhor molho de tomate de todos os
tempos.
Agora tudo é saudade. Saudade que
dói. Mas, se Guimarães Rosa estava certo – e eu acho que estava – as pessoas
não morrem, ficam encantadas.
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