quinta-feira, 28 de junho de 2012

E por falar em saudade...

Falar de gastronomia é falar de vó. Pra mim, é falar da minha vó, naturalmente. E é batata: toda vez que eu penso num modelo de cozinha cheia de gostosuras, penso na minha vó, numa mesa grande, cheia de farinha, e num cheiro muito bom saindo daquele forno.
Neste domingo, minha vó partiu: assim, sem alarde. Quando acordei, na segunda-feira, espiei do corredor para ver se a via fazendo mingau. Fechei os olhos e quase fui capaz de escutar: “Cla, é baunilha ou chocolate?”. Ela não estava lá. Nunca mais vai estar, eu sei. A cabeça sabe, mas o coração, sofrido, pesado, ainda engana os ouvidos, os olhos, as mãos, a boca.  É por isso que, na manhã do dia seguinte, eu ainda insistia em escutar os seus passos mansos, e a via sentadinha no sofá, com seus pés que nunca alcançavam o chão. E ainda hoje, passados quatro dias, sinto o gosto do melhor molho de tomate de todos os tempos.
Agora tudo é saudade. Saudade que dói. Mas, se Guimarães Rosa estava certo – e eu acho que estava – as pessoas não morrem, ficam encantadas.





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